quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

O Vestuário nos Tempos Bíblicos

O Vestuário Israelita 

Artigo publicado pela revista oficial dos ASD movimento de reforma em 1996

O primeiro homem e a primeira mulher andavam nus (Gênesis 2:25); quer dizer, embora não estivessem vestidos, uma luz angelical os circundava (História da Redenção, pág. 38). Segundo a inspiração, “estavam revestidos de uma cobertura de glória e luz, tal como a usam os anjos”. — Patriarcas e Profetas, pág. 29. “A veste branca da inocência foi usada por

nossos primeiros pais, quando foram postos por Deus no Santo Éden. ...Luz bela e suave, a luz de Deus envolvia o santo par. Esse vestido de luz era um símbolo de suas vestes espirituais
de celeste inocência.” —Parábolas de Jesus, pág. 310. Enquanto viveram em obediência a Deus, esta veste de luz continuou a envolvê-los.

Ao entrar o pecado, porém, cortaram sua ligação com Deus, e desapareceu a luz que os aureolava. Nus e envergonhados, trataram de procurar suprir os vestidos celestiais, cosendo folhas de figueira para uma cobertura (Gênesis 3:7). Remonta daí o costume de os seres humanos usarem roupa, no intuito de aliviar o senso de carência, nudez e vergonha que experimentam diante de Deus, dos anjos e de seus semelhantes. Como o alimento e o abrigo, a roupa também passou a ser uma necessidade humana básica.

A Indumentária, que é o estudo dos trajes antigos, poucas informações nos fornece sobre a maneira de vestir dos hebreus. Isto porque, diferentemente Israel não tinha o costume de celebrar seus feitos militares fazendo inscrições ou erigindo monumentos com figuras humanas que pudessem dar ideia de seu estilo de vestir. É provável, porém, que algumas das roupas usadas hoje pelo povo das terras bíblicas, a despeito da influência cultural exercida no decurso do tempo pelas civilizações grega, romana e ocidental, sejam comparativamente similares às que se usavam séculos atrás, haja vista a serventia das roupas ainda aos mesmos propósitos e a permanência inalterada dos costumes ao longo dos séculos.

1. Materiais e cores

O mais antigo material usado no fabrico de roupa de que se tem notícia foram folhas de figueira, usadas por Adão e Eva, que coseram aventais para si (Gênesis 3:7). Posteriormente, Deus fez túnicas de peles para eles, e os vestiu (verso 21). Elias, Eliseu e João Batista usavam “vestes de pêlos”, tendo os lombos cingidos dum cinto de couro, espécie de traje oficial do ministério profético (2 Reis 1:8; 2:13; Hebreus 11:37; Mateus 3:4).

As vestes de sacos (Gênesis 37:34), usadas sobre a pele para mortificação, em momentos de luto ou tristeza  eram feitas de crina (Apocalipse 6:12). Contudo, o material mais comum era mesmo o linho e a lã (Levítico 13:47-49; Provérbios 31:13). Os pobres confeccionavam suas roupas de matéria mais grosseira feita à base de pêlo de cabra e de camelo, embora a lã também fosse empregada. O linho era o tecido mais caro. Raramente usava-se o algodão, visto não ser planta nativa. A seda só é mencionada na Bíblia uma vez, alistada como artigo comercial de Babilônia a grande (Apocalipse 18:12).

Evidências arqueológicas pare­cem mostrar a predileção que os hebreus tinham pelas roupas colori­das. As peças de vestuário eram ge­ralmente de cores vivas e variadas, listradas ou bordadas (Juízes 5:30). Havia grande variedade na configu­ração do tecido. A vestimenta do sumo sacerdote, por exemplo, era uma túnica enxadrezada (Êxodo 28:39). Os israelitas não participan­tes da classe sacerdotal podiam usar uma peça de linho e outra de lã, mas era terminantemente proibido ves­tir roupa tecida com duas ou mais espécies de fios ou vestir-se de es­tofo misturado de lã e linho junta­mente (Levítico 19:19; Deuteronômio 22:11). Além disso, proibia-se a mulher vestir roupa de homem, e vice-versa (Deuteronômio 22:5).

2. Roupas

O termo genérico para designar roupa no Antigo Testamento é beghedh. Empregam-se outros ter­mos, às vezes em sentido lato, em­bora também apareça em outros lu­gares como se aplicando a artigos específicos. As peças essenciais dos trajes do homem e da mulher eram três: uma túnica cingida por um cin­to, um manto e uma capa.

2.1. Roupas Internas.

As rou­pas internas consistiam de cuecas, camisa e túnica.

A. Cuecas. Ao que parece, havia tanto para homens quanto para mulheres uma peça íntima na forma de tanga ou talvez cuecas, coladas à pele, já que a nudez absoluta era vergonhosa. Integrando as vestes sacerdotais, estavam os “calções” de linho, que se estendiam desde os lombos até as coxas, e que os sacerdotes tinham o dever de usar para cobrir a pele nua, a fim de impedir a indecente exposição das partes quando se chegassem ao altar (Êxodo 28:42, 43).

B. Camisa. O sadhin (do heb. “vestido diáfano”) era uma peça de roupa usada por ambos os sexos (Isaías 3:23). Creem alguns se tratar de uma espécie de combinação para ser vestida sob a túnica, mas que agricultores, pescadores, carpinteiros, tosadores de lã, apanhadores de água e outros trabalhadores braçais usavam sem cobertura. Quando utilizado por baixo da roupa externa, o sadhin assemelhava-se a uma camisa com mangas que alcançava os joelhos, podendo ser usada com ou sem faixa. Era feito de linho ou lã.

C. Túnica. O kuttoneth (do heb. “túnica”), ou como era chamado na língua grega, khiton, era uma espécie de vestido. Ambos os termos eram amplamente usados para se referir a uma túnica ou vestido de mangas longas ou curtas, que atingiam os joelhos ou tornozelos. Era o traje caseiro, da vida familiar, e dos arredores do ambiente doméstico. De acordo com alguns estilos do kuttoneth ou khiton, o tecido podia envolver um ombro, deixando o outro descoberto, ou a ambos, e ser branco ou de variadas cores. E provável que o modelo mais longo tivesse aberturas laterais de 30 centímetros a partir da orla, para facilitar as passadas, pois costumava ser justo ao corpo (ver Judas 23). Alguns eram feitos de linho, se bem que a maioria possivelmente fosse de lã, sobretudo entre os pobres. Esta peça de vestuário também era usada por ambos os sexos, posto que a túnica feminina fosse mais longa.

Kuttoneth é o termo amplamen­te empregado na Bíblia para desig­nar, entre outras coisas, a veste sa­cerdotal (Êxodo 28:39, 40); a túni­ca colorida de José (Gênesis 37:3); a túnica talar de Tamar que ela ras­gou em dor e humilhação (2 Samuel 13:18); a túnica inconsútil de Cris­to sobre a qual os soldados lança­ram sorte (João 19:23, 24).

2.2 Roupas Externas.

As rou­pas externas dividiam-se comumente em manto e capa.

A. Manto. Sem mangas e muitas vezes aberto na frente, o meil (do heb. “manto”) era uma vestimenta folgada que se vestia por cima da túnica. Não era de uso restrito ao sacerdócio (Levítico 8:7), mas um item comum do vestuário. Samuel, Saul, Davi, bem como Jó e seus companheiros são mencionados como usando mantos (1 Samuel 2:19; 15:27; 24:4; 1 Crônicas 15:27; Jó 1:20; 2:12). Em todos os casos fica bastante claro que se faz refe­rência a uma peça de roupa secun­dária ou sobressalente, vestida so­bre outra. A Septuaginta traduz muitas vezes a palavra meil para o grego stolê e himation, termos que denotam um peça de roupa sobre­posta. Este componente do vestuá­rio era por vezes mais longo do que o kuttoneth (túnica).

O stolê (do gr. “manto”) do Novo Testamento era um imponente man­to branco que descia até os pés. Je­sus censurou os escribas, cujo mai­or prazer era ostentar esse tipo de veste comprida nos logradouros pú­blicos a fim de chamar a atenção e impressionar as pessoas com a sua importância (Lucas 20:46). O anjo que estava à direita do sepulcro de Jesus trajava um stolê (Marcos 16:5). Foi esse tipo de roupa, “a melhor”, que foi posta sobre o filho pródigo quando de sua volta (Lucas 15:22). E os servos martirizados vis­tos por João ao ser aberto o quinto selo, vestiam também o stolê (Apocalipse 6:1), bem como a mul­tidão de remidos (Apocalipse 7:9, 13, 14).

Sthés (gr.) geralmente se referia a uma veste ou manto ornamen­tado, pomposo. Os anjos apareciam nesse traje (Lucas 24:4). Herodes, escarnecendo de Jesus, vestiu-O com uma roupa resplandecente (Lucas 23:11). Depois de os solda­dos O haverem açoitado por ordem de Pilatos, vestiram-Lhe um manto escarlate (gr. khlamys, Mateus 27:28,31) ou um manto púrpura (gr. himation, João 19:2,5). Este era um manto usado por reis, magistrados, oficiais militares etc.

B. Capa. O simlah (heb. “capa”), feito de lã, linho ou pêlo de cabra, e em alguns casos de pele de ovelha ou de cabra, era das roupas externas a maior, a mais pesada e a mais po­pular. Rasgava-se muitas vezes a capa para indicar tristeza (Gênesis 37:34; 44:13; Josué 7:6). Parecia consistir de uma peça de tecido re­tangular, geralmente colocada em volta do ombro esquerdo passando por baixo do braço direito, como a tiracolo, para proteger do frio. No mau tempo era ajustada firmemen­te ao corpo, sobre ambos os braços e mesmo sobre a cabeça. Apresen­tava-se ocasionalmente em formato quadrado com orifícios para os bra­ços. Em alguns casos, assemelhava-se ao nosso xale, sendo usado como cobertura (Gênesis 9:23), como rou­pa de cama (Êxodo 22:27; Deuteronômio 22:17) ou para atar coisas aos ombros (Êxodo 12:34; Juízes 8:25).

O simlah era usado tanto por homens quanto mulheres, sendo que o das mulheres se distinguia pelo tamanho, cor e decoração do borda­do. Um pobre podia possuir apenas um simlah, ao passo que um rico ti­nha várias mudas (Êxodo 22:27; Deuteronômio 10:18; Gênesis 45:22). Visto que este componente do vestuário era o agasalho dos po­bres durante as noites de frio, era proibido tomar em penhor a capa da viúva ou reter após o pôr-do-sol a capa do pobre (Deuteronômio 24:13,17).

O himation (do gr. “roupa exter­na”) do Novo Testamento equivalia em grande parte ao simlah do Anti­go Testamento. Em alguns casos parecia consistir de uma peça retan­gular de tecido, fácil de vestir e de conduzir. Geralmente era retirada quando o dono se empenhava em trabalho próximo (Mateus 24:18; Marcos 10:50; João 3:4; Atos 7:58). Jesus Se referiu a este artigo de ves­tuário quando disse: “Ao que te houver tirado a capa [himation], não lhe negues também a túnica [khitona].” Lucas 6:29. Ele Se refere aqui a um caso de remoção ilegal e forçada, em que a roupa exterior seria obviamen­te a primeira a ser arrebatada. Em Mateus 5:40, a ordem é invertida. Aí se discute uma ação legal, na qual os juízes podiam adjudicar à parte queixosa o khiton (túnica) em pri­meiro lugar, visto ser essa peça a de menor valor.

O phelonês esquecido em Trôade que Paulo pede a Timóteo para tra­zer-lhe na prisão, era provavelmen­te uma capa de viagem para proteger-se contra o tempo frio e tempes­tuoso (2 Timóteo 4:13).

O addereth (heb.) era uma capa oficial do cargo de profeta e rei (2 Reis 2:8; Jonas 3:6). A capa do pro­feta era feita de pêlo de cabra ou camelo (2 Reis 1:8; Mateus 3:4; Marcos 1:6). Elias apontou Eliseu como seu sucessor lançando sobre ele seu addereth, e Eliseu tomou-a quando seu mestre foi assunto ao Céu (1 Reis 19:19; 2 Reis 2:13). A “boa capa babilônica” furtada por Acã era um addereth real (Josué 7:1, 21).

A palavra grega endyma é gené­rica, sendo empregada com referên­cia à veste nupcial (Mateus 22:11, 12), às vestes do anjo no túmulo de Jesus (Mateus 28:3), à veste de pê­los de camelo de João Batista e às vestes de modo geral (Mateus 3:4; 6:25, 28; Lucas 12:23).

3. Acessórios

3.1 Faixa, Cinto ou Cinta.

Usa­va-se muitas vezes a faixa — banda de tecido que serve para cingir a cin­tura — sobre roupas interna e ex­ternas. Quando alguém se empenha­va em alguma forma de atividade física ou trabalho, “cingia os lom­bos”, isto é, prendia as extremida­des da túnica com a faixa para ter maior liberdade de movimento (1 Reis 18:46; 2 Reis 4:29; 9:1). O sumo sacerdote usava uma faixa bordada em azul, púrpura e carme­sim sobre a túnica de linho (Êxodo 28:4, 8, 39; 39:29).

O cinto ou cinta — tira de pano ou couro — era um item comumente empregado para prender à cintura adagas ou espada, dinheiro, tinteiro de escrivão etc. (Juízes 3:16; 2 Samuel 20:8; Ezequiel 9:3). Elias tinha os lombos cingidos de um cin­to (do heb. ezhor) de couro, assim como João Batista usava um cinto (do gr. zone) de couro em tomo dos lombos (2 Reis 1:8; Mateus 3:4).

3.2 Franjas e Borlas. Deus ordenou aos filhos de Israel que fizessem para si franjas nas bordas de suas vestes, e que pusessem nas franjas das bordas um cordão azul, “para distingui-los das nações em volta, e significar que eram o povo peculiar de Deus”. 2 ME 473.

As borlas, ou pingentes, eram postas nos quatro cantos da capa (Deuteronômio 22:12). A aba do manto do sumo sacerdote era franjada com campainhas de ouro e romãs de azul, púrpura e carmesim alternadas (Êxodo 28:33, 34).

3.3 Alfinetes.

Para fechar a roupa ou prender as faixas, os hebreus usavam alfinetes articulados, semelhantes aos broches. Espécimes encontrados no Oriente Médio consistem de uma pequena haste metálica, com ponta em uma das extremidades e com uma perfuração no meio semelhante a um buraco de agulha, por onde passa um cordão. Para fechar a roupa, introduzia-se o alfinete no pano e enrolava-se o cordão em tomo da extremidade saliente do alfinete.

3.4 Calçados.

O tipo de calçado mais comum era a sandália, espécie de sapato rudimentar usado fora de casa, feito de sola de madeira, ou de couro, apertada ao pé nu por meio de correias, passando pelo peito do pé e à roda dos artelhos (Gênesis 14:23; Isaías 5:27; Atos 12:8). Deus fala de calçar Israel com pele de foca, melhor couro da época (Ezequiel 16:10). Diz-se que os sacerdotes de Israel ministravam descalços no tabernáculo ou templo (Êxodo 3:5; Josué 5:15; Atos 7:33). Mas sair de casa descalço era sinal de dor ou humilhação (2 Samuel 15:30; Isaías 20:2-5).

3.5 Coberturas Para a Cabe­ça.

O povo comum andava com a cabeça descoberta. Às vezes trazi­am turbante, toucado formado por um longo pedaço de fazenda que se enrolava em volta da cabeça (Jó 29:14; Isaías 3:20; Ezequiel 23:20). Na maioria das vezes, porém, servi­am-se da capa. O véu (do gr. peribolaion, “xale”) que o apóstolo Paulo menciona em ligação com o símbolo de sujeição da mulher é di­ferente do véu (pano transparente usado para cobrir o rosto e a cabe­ça) que Moisés pôs sobre o rosto resplandecente (Êxodo 34:33-35; 2 Coríntios 3:13) e com o qual (heb. tsaiph, “xale”) Rebeca cobriu a cabeça quando encontrou Isaque, seu noivo (Gênesis 24:65).

Bibliografia

Insight on the Scriptures, 2 vols. Verbete “Dress”, 1988, Watch Tower. Dicionário da Bíblia, John Davis, 1984, Juerp.

Fonte: Revista Observador da Verdade, janeiro/fevereiro de 1996






















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