sexta-feira, 8 de junho de 2012

A Origem do Movimento da Reforma Segundo R. Ruhling

Matéria que saiu em dezembro de 1975 na Revista Adventista e conta a a origem do Movimento de Reforma pelo pastor Ruhling que taquigrafou a conferência de Friedensau.

O que segue é a tradução de uma carta dirigida por R. Ruhling a D. Nicolici, sobre a origem do chamado “movimento de reforma” da Igreja Adventista do Sétimo Dia.

“Em 18 de julho de 1957.


Pastor D. Nicolici


Presidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia – Movimento de Reforma
Caixa Postal 234, Oak Park, Sacramento 17, Cal.

Caro Irmão Nicolici


Recebi, há algumas semanas, sua carta-circular impresso, datado de abril de 1957, e penso que posso responder àquela parte a que me acho absolutamente qualificado a fazê-lo, e é a que se relaciona com a origem de seu movimento. Parece-me que isto é uma questão de importância vital.

Fui Secretário da União da Alemanha Oriental com sede em Berlim, de 1913 em diante. Em 1920, durante o debate em Friedensau, lavrei em taquigrafia tudo quanto foi dito por ambas as partes e posteriormente o publiquei. E conheci pessoalmente os vários indivíduos que iniciaram esse movimento, bem como a maior parte dos subseqüentes dirigentes.

No alto à direita de sua carta-circular você imprimiu: ‘Originado em 1914’ e, no segundo parágrafo, você imprimiu o seguinte: ‘...Não foi senão por ocasião da crise da I Guerra Mundial de 1914 que a apostasia se revelou claramente’. E, em sua carta de 10 de maio de 1954, página 3, você repete: ... ‘O Movimento de Reforma, que veio à existência como resultado da crise que o povo do Advento defrontou em 1914... ‘Aqui você estabelece o ano de 1914 como o início de seu movimento. Suponho que você reedite isto, de uma declaração freqüentemente feita e que essas pessoas têm expressado, sem conhecer os fatos.

Permita-me que lhe diga francamente, como o tenho feito verbalmente e por escrito muitas vezes no passado, que isto é absolutamente falso, A I Guerra Mundial começou no dia 3 de agosto de 1914. Não havia, porém, absolutamente nenhuma divisão de opinião entre os membros da Igreja Adventista do Sétimo Dia na Alemanha quanto aos irmãos deverem ir e participarem da guerra ou não. Este fato refuta também sua sentença: ‘A minoria que se opôs a este compromisso foi excluída da comunhão da igreja’. Isto é absolutamente inverídico. (Acerca dos que foram excluídos da comunhão da igreja, escreverei depois. Deixe-me continuar).

Como declarei, a Guerra começou em agosto de 1914. Passaram-se os meses de agosto, setembro, outubro, novembro e dezembro. Foram cinco meses, mas não houve divisão alguma de opinião em parte alguma, nenhum protesto, nenhum problema, nenhuma disputa, nenhuma dissidência em qualquer de nossas igrejas acerca desta questão. Este movimento de reforma teve início em começos de janeiro de 1915, e aconteceu em torno de um problema totalmente diferente, a saber, a visão que algumas pessoas pretendiam ter tido acerca do fim do tempo da graça. Desta forma, repito, quando o pretenso movimento alemão de reforma começou, não envolvia o problema de portar armas ou participar da guerra.

Dois membros leigos, que conheci, J. Wick e irmão Czukta, foram, com muitos outros membros de nossas igrejas, recrutados pelo exército alemão e enviados a Berlim para treinamento básico. Aqui estes dois irmãos recusaram-se a ser vacinados, e foram enviados à prisão militar por sete dias. Enquanto estava na prisão militar, J. Wick pretendeu ter tido uma visão, escreveu e a enviou à nossa casa publicadora em Hamburgo com o pedido de que fosse publicada em nosso órgão oficial. A editora recusou-se a publicá-la.

Quando estes dois homens foram libertados, desertaram do exército e foram a Bremen, onde encontraram refúgio com o pastor da igreja. J. Wick arrecadou dinheiro para publicar, por conta, sua visão, e enviou um exemplar a quase todos os pastores e membros de igrejas na Alemanha. Declarava ter recebido a visão no dia 11 de janeiro de 1915, na qual lhe foi mostrado que, quando as cerejeiras florissem na primavera (abril-maio) terminaria o tempo da graça. Afirmava que também lhe fora mostrado que ele deveria relatar essa visão aos irmãos dirigentes e se não aceitassem, estavam caídos.

Aqui realço de novo, nada havia. Aquela pretensa visão que li muitas vezes, acerca da guerra ou de participar nela. Só tinha que ver com o encerramento do tempo da graça.

Os líderes na Alemanha declararam que esta visão ou era fruto da imaginação, ou provinha de Deus ou provinha do diabo. Visto que se provou não ser verdadeira, assim a conclusão só podia ser quanto à origem imaginária ou provinha do diabo. Isto foi o início do “movimento de reforma”.

Por essa ocasião, outras pessoas pretendiam ter tido visões. Uma delas, a irmã Kersting, membro leigo, afirmava ter tido uma visão em fevereiro ou março de 1915, na qual recebeu luz de que o tempo da graça se encerraria quando as cerejeiras florissem. Uma senhora Ziegler, outro membro leigo, afirmava ter tido uma visão. Mais um ou dois também declararam te tido visões. Uma irmã, membro leigo pertencente a uma igreja de subúrbio em Berlim, relatou sua visão à igreja. Os membros da Comissão da Associação foram falar com ela. No decorrer da entrevista afirmava que outrora havia praticado coisas como as que se acham escritas no espúrio Sexto e Sétimo Livros de Moisés (livros de bruxaria que circulavam na Idade Média), e que fora capaz de operar algumas curas, resultado do que aprendera no livro. Estes falsos profetas, parece, não mantinham contato entre si e, portanto, não iniciaram a obra em conluio entre si.

Chegou a primavera de 1915, as árvores floresceram, e nada aconteceu. Durante todo esse tempo nada foi dito acerca de pegar em armas, pois a questão suscitada era concernente ao encerramento do tempo da graça.

Os dois desertores do exercito foram presos e metidos numa cadeia por cinco anos. O Sr. Czukta faleceu na prisão. Quando o Sr. Wick foi libertado ele não continuou com os pretensos “reformadores”. Os demais falsos profetas juntaram a si simpatizantes de vários lugares, como Berlim, Bremen, Hamburgo, Munich, etc. Renegaram seus irmãos dirigentes, porque estes não aceitaram as pretendidas mensagens como vindas de Deus. Tão logo passou a época da floração das árvores em 1915, novas declarações eram enviadas quase todas as semanas pelos falsos profetas, estabelecendo o dia 10 de maio de 1915 como data do fim do tempo da graça. Tendo passado esta data, outra foi estabelecida. Alteraram suas datas cinco ou seis vezes. Isto capacitou nosso povo a perceber a leviandade em crer nos tais falsos profetas.

Então algo mais aconteceu. Na Saxônia nossas igrejas foram fechadas e fomos proibidos de realizar cultos.

Quando irrompeu a Guerra em agosto de 1914, o Pastor H. F. Schuberth fez uma declaração ao governo germânico em Berlim para efeito de serem nossos irmãos aconselhados a pegar em armas de Guerra. E logo no verão de 1915 uma segunda declaração foi apresentada ao governo alemão com relação a pegar em armas, feita pelos Pastores L. R. Conradi, H. F. Schuberth, e P. Dilnhaus. Neste documento se fez referência à declaração do Pastor Schuberth, do ano anterior. Como resultado, cessou a proibição contra nossa obra na Saxônia.

Os fanáticos conseguiram uma cópia do documento que esses irmãos apresentaram ao governo, e o usaram para fomentar rebelião contra os líderes de nossa obra na Alemanha. Obreiros não assalariados da denominação tomaram parte nisso. Um dos líderes da facção rebelde era um tal Sr. Richter, ex-ancião da igreja em Bremen. Começaram a denunciar a igreja como estando caída e se tornado Babilônia, e insistiam com os irmãos, especialmente seus simpatizantes, a saírem de nossas igrejas. Foi por esse tempo que os pretensos “reformistas” começaram a tomar a posição de que nossos irmãos não deviam pegar armas em guerra. Organizaram-se grupos, que se reuniam. Seus dirigentes trabalhavam de um lugar para outro. Alguns de seus seguidores recusaram-se a atender à convocação para o serviço militar. E quando alguns de nossos irmãos, ao serem inquiridos pela polícia, respondiam nada saber sobre eles, os “reformadores” diziam que estavam sendo perseguidos pela denominação. Começaram a propagar suas idéias imprimindo literatura.

De acordo com minha lembrança nenhum de nossos ministros ordenados na Alemanha juntou-se a esta rebelião “reformista” durante o período da Guerra.

Quando terminou a Guerra, em novembro de 1918, alguns jovens ministros não ainda ordenados juntaram-se aos “reformadores”. Um deles foi Henry Spanknöbel, com seu irmão Karl Spanknöbel. Posteriormente quando surgiram os nazistas na Alemanha, Henry juntou-se a eles. Os nazistas o enviaram em missão especial aos Estados Unidos. Quando se suspeitou que o F.B.I procurava Henry Spanknöbel, o embaixador alemão em Washington, D.C. escondeu-o e o enviou a Nova Iorque num barco, e de lá para a Alemanha. O F.B.I. vasculhou o bote mas não pôde encontrá-lo.

Os dois irmãos tornaram-se proeminentes e ativos como primeiros líderes do “movimento de reforma”. Henry era hábil orador. Tanto ele como Karl serviram no exército alemão durante a I Guerra Mundial, e só quando a guerra terminou é que se juntaram ao “movimento de reforma”. Henry desapareceu misteriosamente, e seu paradeiro é desconhecido. Karl está agora na América, e a si mesmo se intitula “Nobre”. Um sobrinho deles, Pastor J. N. Noble, é um de nossos ministros em Dakota do Sul.

Realizou-se uma reunião em Friendesau, Alemanha, de 21 a 23 de julho de 1920, tendo comparecido homens preeminentes da Associação Geral, como o Pastor A. G. Daniells, F. M. Wilcox, M. E. Kern, L. H. Christian. Foi nessa ocasião que chegou o Pastor Christian para assumir o encargo de presidente da Divisão Européia, tendo sido eleito para aquele posto na anterior assembléia da Associação Geral.

O líder dos “reformistas” era então um Sr. Dörschler que havia antes sido ancião em uma de nossas igrejas, mas não era obreiro denominacional. Estabeleceram sua sede central em Würzburg, sul da Alemanha, onde imprimiam suas publicações. Denunciaram a obra da Cruz Vermelha como provinda do diabo, e admitiram isto nesta reunião em Friedensau, porque havíamos aconselhado nossos homens a servir no corpo médico durante a Guerra.

O Pastor Daniells e seus associados da Associação Geral trabalharam exaustivamente com os irmãos dissidentes, procurando ganhá-los de volta. Com muito cuidado, o Pastor Daniells explicou nossa posição denominacional na questão de pegar em armas em tempo de guerra. Também se mostrou que os dirigentes de nossa obra na Alemanha cometeram um erro em aconselhar nossos irmãos a pegar em armas na I Guerra Mundial. Depois de ouvirem a explicação da posição denominacional assumida pelo nosso povo neste assunto, os líderes de nossa obra na Alemanha prontamente reconheceram que haviam cometido erro.

Enquanto os “reformadores” nos chamavam de “Babilônia” em suas publicações, não podíamos por mais tempo tolerá-los em nossas igrejas, e os excluímos do rol de membros. Qualquer organização teria feito o mesmo. Mas vejam a incoerência! Primeiro nos chamaram de Babilônia da qual deviam sair, e depois pretendiam estar sendo perseguidos pela denominação quando esta os excluiu. Por que não queriam ser excluídos de Babilônia? Ou perceberam que não podiam fazer melhor trabalho de propaganda enquanto afirmassem ser membros da igreja?

Agora, de acordo com esta declaração absolutamente verdadeira que lhe escrevo, posso esperar que você mude sua pretensão acerca do ano de 1914?

Alguns dos ex-lideres, após abandonar o “movimento de reforma” acaso repudiou seus atos anteriores e confessou seus erros? Permita-me que lhe apresente uma ilustração: em 1926, durante a assembléia da Associação Geral realizada em Milwaukee, encontrei-me com Karl Spanknöbel, a quem conhecia muito, e que foi um de seus líderes. Ele me disse: “Irmão Ruhling, desde que estou aqui na América, e aprendi o inglês, e comecei a ler os testemunhos, estou agora convencido de que não tínhamos nenhuma razão para nosso movimento de reforma”. Ora, confessou ele alguns de seus erros, e arrependeu-se do prejuízo que causou à nossa denominação? Ou ligou-se de novo à igreja? Não. Ele ainda vive em Detroit mas não é membro da denominação. Ou, os que arrecadam dízimos e ofertas de nossos membros os têm alguma vez restituído ou confessado seu erro? Têm eles alguma vez confessado seu erro por nos terem chamado publicamente de Babilônia?

Há uns dez ou doze anos encontrei um jovem em Lodi, Califórnia, durante nossa reunião campal. Pretendia saber tudo o que ocorrera na Europa, com a origem do movimento a que pertencia. Perguntei-lhe quantos anos tinha. Descobri que ainda não havia nascido em 1914, mas pretendia saber tudo. Disse-lhe que ele nada sabia. Ou o que ele sabia havia aprendido dos escritos distorcidos de alguns reformistas. Disse-lhe que fosse para casa, estudasse a Bíblia e os escritos do Espírito de Profecia, e cessasse de pregar falsidades e aprendesse a proclamar a verdade.

Assim, se você é sincero como declara em sua carta, espero muito convictamente que você faça algumas correções, pelo menos quando imprimir nova carta-circular.

Sinceramente,
a) R. Ruhling


Fonte: http://www.revistaadventista.com.br/cpbreader.cpb?ed=1416&s=3873171211

2 comentários :

  1. Pois é, quem não conhece a história do povo de Deus, precisa ficar achando artigos de pessoas que não são inspirados por Deus pra conhecer a história da Reforma. Infelizmente a ignorância com relação a esse assunto tem criado desavenças entre reformistas e adventistas. Se todos buscasse, com oração, estudar a história da sua igreja, encontrariam a verdade.

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  2. E o pastor Alfons Balbach foi inspirado por Deus para contar a história da Reforma? Não tem ninguém melhor para contar a história do movimento de reforma do que o taquígrafo da reunião de Friendensau, não?

    Com certeza tem alguém mentido nessa história, mas as muitas evidências que estou colocando e as que ainda não postei, mostram que não é o pastor Ruhling o mentiroso que professa seguir a Jesus!

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